Tenho duzentos textos pra escrever... todos estão na minha cabeça, mas eu não consigo, embora queira, embora goste.
Quando eu tinha uns 17 anos, estive na minha 1ª inauguração de açougue pelo lado de dentro. É que o meu pai trabalhou nisso a vida toda, mas eu sempre visitava depois de aberto, a festa, a bandinha, palhaços, bolas, bexigas, algodão-doce, pirulitos e música. O açougue ficava no ‘coração’ de Diadema e o horário previsto para abertura era meio-dia. As 9 da manhã a fila já dobrava a esquina... lá dentro a maior correria para arrumar as coisas, funcionários sendo contratados, carne chegando, placas e limpeza a serem feitas. Enquanto eu arrumava o troco no caixa, meu pai e meu irmão abriam as portas. Eu nunca havia feito um troco na vida. Me lembro até hoje que a 1ª cliente era uma jovem japonesa... Ela me estendeu o dinheiro e um ticket com o valor a ser pago. Eu hesitei por um segundo. Meu pai ao meu lado carimbou o ticket da moça e a encaminhou ao lugar onde estavam os pacotes, devolvendo-lhe o dinheiro e dizendo que o 1º cliente era por conta da casa. Não tive coragem de perguntar se ele fez aquilo porque percebeu minha insegurança ou se era apenas uma tradição. Ao próximo da fila eu atendi ainda com medo, mas meu pai ficou ao meu lado até eu pegar o jeito. Nós não tínhamos ainda uma relação de intimidade, não que agora tenhamos tanta assim, mas o tempo que passamos ali fez muita diferença. Não foi só aquele ballet que o trabalho com comércio exige, aquele encaixe que faz com que não nos atropelemos, mas que saibamos o que o outro precisa, o que vai dizer. Mas eu aprendi a enfrenta-lo, a não ter medo de explicar minha posição. Hoje temos uma relação. Se eu precisasse ser caixa novamente, saberia exatamente o que fazer.
E parece que me encontro na mesma posição agora. As pessoas chegam até mim precisando de conselhos, precisando de ajuda. Eu não sei exatamente o que fazer e olho pro céu, ansiosa pra que meu pai ajude a esta vida e me mostre o que fazer da próxima vez... ansiosa por apoio e confiança, como o apoio de um homem que segura a mão de sua esposa no momento do parto... eu imagino que seus olhos e seu toque sejam toda a confiança que ela precisa pra seguir em frente, numa tarefa que não pertence a mais ninguém além dela. Parece que a corsa já pode sentir o cheiro das águas, antes mesmo que as chuvas possam gerar o rio, como as pessoas sabiam que o açougue estava prestes a ser inaugurado. A corsa já se curva na beira do rio esperando que ele passe e sua língua já se prepara para as primeiras lambidas. Talvez a 1ª corsa não consiga beber daquela água, talvez ela venha poeirenta por causa da seca. Mas é certo que a chuva molhará além do rio também a corsa... é certo que sedenta ela não partirá. E o rio fluirá e dará de beber a outras corsas e a todos os animais. E nunca mais haverá sede.
Hoje enquanto caminhava eu vi um menino. Ele tinha a minha altura, já não era mais menino. Sobre os ombros ele tinha um caixote de engraxate... na mão direita uma garrafa com cola. Ele a cheirava. Era meio-dia.
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